Amor que impulsiona

Em 2011 começamos o que é hoje o projeto Esperança aos Refugiados. Tudo começou com uma visita a uma casa de uma família de refugiados que recém chegava ao país, fugindo da guerra na Síria. A família era formada por uma viúva, seus dois filhos, de 6 e 10 anos, seu irmão, que ficou paralítico em consequência da guerra, por seus pais já avançados de idade.  O que mais nos chamou a atenção naquela família foi o filho mais velho (Samuel). Ele estava visivelmente assustado e revoltado. Toda esta revolta se transformou em sede de vingança e, por várias vezes, ele dizia que iria se preparar para voltar um dia para Síria e se vingar do que haviam feito com o seu pai (morto na guerra).

 

Sempre tentávamos motivá-lo a participar das atividades desenvolvíamos com outras crianças sírias. E a resposta que recebíamos era: Eu não quero fazer isto. E perguntávamos: Por que você não quer? E ele respondia: Eu tenho outras coisas mais importantes para fazer.

 

Mais tarde descobrimos que o que ele tinha de mais importante a fazer era treinar para ficar mais forte e, assim, se vingar daqueles que tinham-lhe causado tanta dor e perda. Samuel fabricava armas de brinquedo para simular seus treinamentos de guerra.

 

Um certo dia desafiamos Samuel a ficar conosco, mesmo que não participasse das atividades, mas que pudesse observar e tirar suas conclusões, se seria ou não algo bom para ele. No primeiro dia ele apenas observou; no segundo dia, entretanto, ele já se interessou em fazer alguns desenhos e colori-los; nos dias seguintes começou a ser mais efetivo nas atividades e até a fazer trabalhos manuais.

 

Samuel seguiu fazendo atividades físicas para ficar mais forte e nós seguimos o motivando a continuar. Muitas vezes o elogiávamos dizendo que realmente ele estava ficando forte e com uma aparência mais saudável. Na verdade queríamos que Samuel canalizasse todo aquele sentimento e desejo de ficar forte, não para voltar para a Síria e se vingar dos que o haviam ferido, mas sim que o fizesse renascer para algo melhor, que  firmasse sua fé em Deus e no próximo. 

 

A partir daquela experiência com Samuel fazíamos uma pergunta: Será que em um mundo de tanta violência, guerras, injustiças, sofrimento e opiniões diversas e adversas, nossas convicções estão alicerçadas e firmes em amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos? Sem este tipo de amor, certamente teríamos desistido de Samuel e talvez ele já estivesse se unido ao Estado Islâmico.

 

No dia do seu aniversário, perguntamos a Samuel o que ele gostaria de ganhar de presente. Em nossa mente, pensamos que ele iria pedir um brinquedo qualquer, mas para a nossa surpresa ele pediu uma Bíblia. Ele queria conhecer mais sobre o Deus que nós cremos. Aquela foi a resposta de que realmente vale a pena investir em vidas e que valeu a pena caminhar com Samuel, ter paciência com os limites dele, mesmo quando era um temor ou medo disfarçado de agressividade, irritação e recusa.

 

Samuel hoje tem 18 anos de idade e trabalha em nosso centro como professor de taekwondo  e há algumas semanas ele foi batizado e tem sido um dos obreiros que temos treinado. O amor de Deus nos impulsiona a não desistirmos daqueles que Ele coloca em nosso caminho.

 

Coordenadoras do Projeto Esperança aos Refugiados

Oriente Médio