VOZ DOS QUE SOFREM

Idosa Refugiada - JMM
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 Acabo de chegar num bote a este campo de refugiados. Parece ser um lugar bem distante do meu país, a Síria. Junto comigo, chegaram umas 3 mil pessoas em outros botes. A gente veio se acotovelando, brigando por um espaço. Num bote que cabiam só 10 pessoas, havia mais de 30. Em vários momentos, pensei que fôssemos virar e morrer ali em alto-mar. Foram as horas mais longas da minha vida. Minhas costas doem tanto que não tenho forças para andar até o espaço onde estão distribuindo alimentos.

 

O calor aqui está insuportável. Se eu não conseguir comer e beber água hoje, creio que não conseguirei sobreviver até amanhã. Preciso achar meus 3 filhos. Eles vieram em outros botes. Só tenho a eles na vida, já que meu marido foi morto na guerra. Mas como encontrá-los, se eu não consigo dar dois passos sequer?

 

Preciso ver meus filhos. Minha netinha fez aniversário e eu nem pude fazer um bolo pra ela, tirar fotos... Precisei vender tudo o que tínhamos para conseguir pagar por esta viagem de bote até este país da Europa, que ainda não descobri qual é.

 

Quando disseram que viríamos para a Europa, meu coração se encheu de esperança. Imaginei que estivesse tudo resolvido. Mas durante a viagem, fomos agredidos pelos donos dos botes. E agora uma mocinha veio avisar que, se não conseguirem mais ônibus, todos nós ainda precisaremos caminhar por durante 3 dias até encontrarmos o lugar para nos registrarmos. Sem este registro, não teremos acesso a nada. Se um jovem faz esta caminhada em 3 dias, imagina eu que já sou uma idosa? Não tenho mais saúde para isso.

 

Preciso de ajuda!